Perfeição é utopia

José Renato Nalini

A sociedade competitiva que se instaurou na modernidade impõe o comando do perfeccionismo. Todos têm de ser “os melhores”. Estabelecem-se rankings, cobra-se performance, critica-se o insucesso.

O resultado é uma geração ansiosa, angustiada, deprimida e suicida. O fenômeno é examinado pelo psicólogo Thomas Curran, da London SchoolofEconomics, em seu livro “A Armadilha da Perfeição”.

Os pais, querendo acertar, muitas vezes erram. Exigem dos filhos que sejam perfeitos, às vezes até com a melhor inspiração, baseados no “sede perfeitos, como Meu Pai é Perfeito”. Aprendemos que Deus “é um espírito perfeitíssimo, eterno criador do céu e da terra”. E persistimos no pecado de Adão e Eva: queremos igualar a divindade.

A cobrança está na escola, pois o que interessa é ser “o primeiro da classe”. A vida mostra que o primeiro da classe nem sempre é o primeiro na vida. Na escala do que realmente vale a pena: ser feliz. Muita exigência gera baixa autoestima. Como diz Curran, “a vida se torna um tribunal infinito para nossos defeitos”. Há três espécies de perfeccionismo: orientado para si mesmo, com padrões pessoais excessivamente elevados, orientado aos outros, com as comparações que sempre frustram e o prescrito socialmente. Estar de bem com o “politicamente correto”, com o padrão de beleza, com a moda do momento imposta pelo mercado.

A catástrofe se torna maior com a utilização das redes sociais que ridicularizam aquilo que consideram fora do padrão. O bizarro, o exótico, o diferente, é tido como suscetível de zombaria e escárnio. Não é fácil admitir que o fracasso faz parte da vida. Viver é uma batalha permanente. Nem sempre somos vencedores. Mentira que a perfeição é o caminho do sucesso. De que adianta “chegar lá” e ser infeliz?

Reconheçamos nossos limites, nossa fragilidade e nossa finitude. Não queiramos ser sempre os campeões. Admitamos nossas falhas. Não precisamos nos amparar nelas para não procurar o aprimoramento. Mas a existência é uma sucessão de fatos, alguns poucos dos quais sob nosso controle. A imensa maioria deles, ocorre independentemente de nossa vontade. Saber disso torna a vida mais digerível. Menos cobrança, mais satisfação consigo mesmo e menos expectativas em relação aos demais.

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José Renato Nalini, Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo

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