Mitos & Modas

Armando Alexandre dos Santos

 

Recordo que, durante minha licenciatura em História, uma colega certa vez escreveu uma frase maravilhosa que não vou esquecer nunca mais: “Incrível notar que a mitologia grega nos chega até hoje, e os nossos ídolos as vezes não duram mais do que um carnaval”.

Ela (cujo nome omito porque sei ser pessoa muito recatada e avessa a holofotes) tinha toda a razão. Os mitos da Antiga Grécia são permanentes. Referem-se, muitas vezes, a pessoas simbólicas, que exprimem certos valores absolutos, bons ou maus. Por exemplo, Aquiles e Ulisses são dois homens representativos e simbólicos de valores absolutos. Ambos eram guerreiros e, por razões circunstanciais, estavam lado a lado na mesma guerra, mas concebiam a guerra de modos diversos, e por trás dessa diferença de concepções havia todo um mundo de coisas. Aquiles era a força, a bravura, o valor… mas era também o ímpeto, o descontrole, a oscilação temperamental. Ulisses era corajoso, mas era sobretudo astucioso, prudente (salvo quando ousou desafiar o deus Posseidon e se deu mal), sábio, diplomático. Aquiles passou para a história, via mitologia grega, como o arquétipo do guerreiro, mas de certa forma fracassado: morreu na luta de modo surpreendente, ele, o maior dos guerreiros, caiu ferido no calcanhar… Já Ulisses, que era menos brilhante como guerreiro, foi o vencedor real da guerra, com a artimanha do cavaloque enganou os troianos. Por trás da dicotomia Aquiles-Ulisses está, pois, um universo de coisas, um confronto de valores opostos e/ou complementares, com inegável conteúdo ideológico.

Dei como exemplos apenas dois modos de conceber e realizar a arte ou ciência da guerra, mas poderia dar inúmeros outros. Há, nos mitos gregos, incontáveis exemplos de personagens que, para o bem ou para o mal, simbolizam e exprimem valores absolutos, com conteúdo ideológico muito palpável. Toda uma série de problemas e anseios de caráter permanente e coletivo, muitas vezes implícitos e subconscientes, exprimiam-se pelos mitos.

Essa é uma tendência permanente do ser humano, nos tempos gregos e em todos os outros, inclusive nos nossos. Mudam as formas e as representações, mas os problemas fundamentais permanecem os mesmos.

Uma área do conhecimento que trabalha muito com os mitos e aprende a manipulá-los habilmente é a da propaganda ou, em termos mais modernos, do marketing. Qualquer pessoa que tenha feito curso de marketing sabe que quando se oferece um produto, na realidade o que se está vendendo é uma ideia, uma sensação, um valor abstrato e absoluto simbolizado e expresso por aquele produto. Se eu sou vendedor de passagens em transatlântico, é claro que eu ofereço essas passagens; mas o comprador, na realidade, compra o status, ou a sensação de riqueza, ou a sensação de segurança e plenitude que a viagem em transatlântico de luxo produz. Quem compra uma casa de campo, na realidade busca o conforto, a tranquilidade e o bucolismo e a paz que, simbolicamente, em sua mente se associam à casa de campo. Quem compra um automóvel do ano, na realidade procura a riqueza, a sensação de sucesso e a consideração geral que a posse do carro do ano normalmente exprime. E assim por diante.

O curioso é que esses padrões vão mudando, de acordo com as modas, as tendências, os costumes, mas os grandes mitos permanecem. Um exercício interessante é pegar, em qualquer sebo, revistas dos anos 50 (por exemplo, velhas coleções de “Seleções do Reader’s Digest”) e analisar as propagandas de produtos oferecidos, observando quais as ideias, quais os “absolutos” que estavam sendo oferecidos. Não são muitos diferentes dos de hoje. Confesso que já fiz isso muitas vezes, não só com “Seleções”, mas também com revistas como “O Cruzeiro”, “Manchete” e “Fatos & Fotos” dos anos 50 ou 60. É um exercício realmente prazeroso e enriquecedor.

Outro aspecto interessante a destacar é o da cultura do corpo. Atualmente, considera-se como padrão de beleza um corpo esguio. Qualquer gordurinha extra deve ser banida. Por ação ditatorial da mídia, esse é um modelo imposto a todos, homens e, sobretudo, mulheres. Em outros tempos, porém, isso era muito diferente. Hoje, de modo geral, comemos mal e demais, mas tempos houve em que havia escassez de alimentos. Então, ter gorduras acumuladas era ótimo sinal, já que significava maior resistência quando chegasse o tempo da carestia, e maior resistência também diante de doenças infecciosas que eram frequentes e, muitas vezes, mortais. Ficava feio para uma mulher ser magrela… As gordas eram, então, prestigiadas.

Quem pesquisa em arquivos antigos encontra, por vezes, coisas muito engraçadas. Recordo que na cidade portuguesa de Vila Viçosa, certa ocasião houve, no início do século XVIII, uma “troca de princesas”. A “troca de princesas” se dava quando, em decorrência de acordos políticos, eram combinados casamentos entre as dinastias de Portugal e de Espanha. Na fronteira, trocavam-se as princesas, geralmente meninas de 8 ou 10 anos, que iam completar sua educação no outro país, já noivas de príncipes que mais tarde herdariam as coroas de suas nações. Li o relato muito engraçado de uma troca de princesas ocorrida em Vila Viçosa, perto da fronteira entre Portugal e Espanha. A portuguesinha que ia para Madri era gordinha, rechonchuda, como se apreciava no tempo; e a espanholinha, destinada a Lisboa, era magra, angulosa e ossuda (exatamente como se exige das modelos de nossos dias). A população local, que assistiu à troca, não gostou e começou a reclamar. Comentava que era injusto os espanhóis, sempre aproveitadores e exploradores, “nos darem uma sardinha e levarem em troca uma tainha”… Esse fato ficou registrado nas crônicas da época como sintoma de insatisfação popular com a política internacional portuguesa da época…

É curioso que o mesmo absoluto da saúde física e da beleza que outrora fazia as moças desejarem ser gordas hoje as faz anoréxicas. Mudaram os paradigmas mas o mito permanece o mesmo.

 

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Armando Alexandre dos Santos, licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Portuguesa da História e dos Institutos Históricos e Geográficos do Brasil, de São Paulo e de Piracicaba.

 

 

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