Pessoas e empregos em tempos de corona

Thales André Valle de Campos

Eu posso não ser certificado pra falar em vírus, infectologia ou coisas do gênero. Mas eu posso, com certeza, falar de populações com propriedade.
Acompanhando as notícias, percebi que muitas pessoas, principalmente alguns empresários, não entenderam muito bem porque temos que ficar de quarentena, todos em casa sem poder sair. Então eu vou resolvi escrever sobre isso.
Mas, antes, eu preciso dizer da forma mais clara possível: uma vida humana não tem preço. Não existe dinheiro no mundo que seja suficiente pra compensar a vida de uma pessoa querida que se foi. Por qualquer motivo.
Só isso já deveria ser suficiente para garantir que todos cumprissem o isolamento social, o lock down, e ninguém reclamasse.
Enfim, estou escrevendo este texto no dia 24 de março de 2020 e os valores que eu vou usar aqui são referentes a esse dia.
Bom, em estudos populacionais, em estudos de renda, nós usamos um conceito chamado “linha da pobreza” ou “linha da miséria”. Essa linha é um valor em dinheiro. Quem vive com esse valor ou menos por dia é considerado pobre. Hoje a linha da pobreza está fixada em US$ 1,90. Em reais, arredondando, dá R$ 9,70. O que no mês é mais ou menos R$ 300.
Agora vamos fazer de conta que uma pessoa de 60 anos de idade venha a falecer por causa do coronavírus e que essa pessoa vivia exatamente com R$ 300 por mês, na linha da pobreza. Considerando que a expectativa de vida no Brasil hoje é de 75 anos e meio, podemos dizer que essa pessoa deixou de viver 15 anos e meio e, obviamente, deixou de consumir.
Fazendo as contas, o dinheiro que essa pessoa iria gastar se continuasse viva dá por volta de 55 mil reais. Só que você tem que lembrar que eu estou falando de uma pessoa que vai viver pouco tempo com o mínimo do mínimo.
Se eu pensar em um jovem adulto de 20 anos, a coisa fica feia: pelo mesmo raciocínio, ele vai deixar de viver 55 anos, ou seja, ele vai deixar de injetar na economia algo próximo de 200 mil reais. E olhe que eu nem contei o que ele vai deixar de produzir pra sociedade: se ele for empregado, ele gera renda para quem o contrata também; se for chefe, ela gera oportunidades pra outras pessoas.
O Brasil já tem 46 mortes causadas pelo Covid-19. Se considerarmos que todos que vieram a falecer foram idosos de 60 anos que tinham uma renda de R$ 300 mensais, o país já perdeu mais de um milhão de reais nos próximos 15 anos. Mas não é esse o caso. Os primeiros infectados são as pessoas mais ricas, então pode aumentar bastante esse valor: nossa economia já perdeu alguns milhões nos próximos anos.
Falando sério: o prejuízo que acontece com todo mundo preso em casa pode ser recuperado com o tempo, é só esperar esse momento ruim passar. Inclusive, muitos políticos estão trabalhando para que as empresas mantenham suas portas abertas até o fim do que estamos passando.
Agora, quanto mais pessoas vierem a falecer nessa crise, menos gente para consumir no futuro. E isso é uma perda estrutural na capacidade econômica de consumo do país. Esse valor nunca mais será recuperado.
Pra você, empresário que é contra o isolamento pra evitar o corona vírus: essa medida vai diminuir o número de mortes. Cada pessoa a mais que sobreviver, depois desse tempo em casa, é uma pessoa a mais que pode consumir no seu estabelecimento… claro, se você não queimar seu filme antes.

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Thales André Valle de Campos, bacharel e licenciado em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP)

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